Estimativa é de psiquiatras ouvidos pelo O POVO. Ações do poder público ainda são tímidas no cuidado a esse tipo de paciente. Familiares reclamam da demora para conseguir leitos nos hospitais de Fortaleza.


O lado esquerdo do rosto ainda estava inchado. “Pegaram ele por aí”. Com olhar perdido a mãe tenta dar explicações. Baixa a cabeça. Olha para o filho. Talvez, os detalhes não sejam à reportagem O POVO, mas ao próprio sofrimento. Com 32 anos, ele está internado em um dos três hospitais psiquiátricos da Capital há um mês. É usuário “de tudo” há 16 “tristes anos”. “Cola, solvente, cocaína, álcool, crack… agora, está na gasolina também”, lamenta.

Enquanto a mãe narra infortúnios, ele, com as mãos, esconde o rosto. Com o som da voz abafada, suplica a quem, “apesar de tudo”, insiste na possibilidade de cura. “Tá bom, mãe! Para! Dói (lembrar)… Não quero mais”, ele sussurra. “Mas é difícil”. E silencia. E sai. Como o rapaz de sonhos sufocados, 80% dos dependentes químicos internados nos hospitais psiquiátricos de Fortaleza estão ali, principalmente, por causa do crack, segundo especialistas ouvidos pelo O POVO.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) contabiliza haver 6 milhões de brasileiros dependentes. “O problema é muito sério e só aumenta. O que a gente tem para essa população? Praticamente nada que traga resultados realmente eficazes”, conclui o vice-presidente do Núcleo de Psiquiatria do Estado do Ceará (Nupec), Fábio Gomes de Matos e Sousa.

Fábio, que também é professor do Departamento de Psiquiatria da Universidade Federal do Ceará (UFC), acredita que 10% da população tem algum tipo de dependência química (álcool e outras drogas), o que representa, em Fortaleza, aproximadamente, 250 mil pessoas. Segundo a Prefeitura, cerca de três mil são atendidas por mês nos seis Centros de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas (Caps AD), da Capital. Para pacientes dependentes, há ainda 12 vagas na Unidade de Desintoxicação (UD), da Santa Casa de Misericórdia, e 20 vagas na UD do Hospital de Saúde Mental de Messejana. Não é possível saber quantos são os dependentes químicos internados nos Hospitais São Vicente de Paulo e Nosso Lar, já que a Central de Leitos do Município não faz distinção entre os motivos de internação.

“Não consigo sozinho”

“Eu queria que pudesse existir um local só para dependentes químicos. Não acho certo todo mundo junto” avalia o rapaz de 25 anos. Dependente há 11 anos, internado, quer sair do hospital também para olhar com dignidade para o filho de oito anos. “Sei que posso ser bom pai e que ainda posso dar um bom exemplo de superação”.

Ele diz que não consegue desvencilhar-se do vício sozinho. Por isso, pede para ser internado mesmo sentindo falta de atividades de entretenimento e formação para a reinserção no mercado de trabalho dentro do hospital psiquiátrico.

Segundo a Prefeitura de Fortaleza, na linha do tratamento aos dependentes químicos – não especificamente de crack -, desde 2011 existem 120 vagas em seis comunidade terapêuticas parceiras, com promessas de criação de mais 120 vagas no próximo ano.

O quê

ENTENDA A NOTÍCIA

A redução de leitos se reflete também na falta de tratamentos mais ostensivos no combate à epidemia de crack. Médicos reclamam de poucos lugares onde o dependente químico tenha muito mais que tratamento medicamentoso

Fala, internauta

Leitores do O POVO comentaram ontem o primeiro dia da série sobre o atendimento psiquiátrico no Facebook do portal O POVO Online. Confira alguns comentários feitos:

“Mais respeito e empenho deveriam ser destinados aos serviços que pretendem lidar de modo corresponsável com seus pacientes e familiares”
Jaína

“É necessário um programa urgente para tratamento digno dos viciados. Vício de crack se trata com profissionais qualificados e não com moralismo e religião”.
Débora

“Combater e ajudar o próximo é mais que política pública é exercício de cristandade e humanidade. O que o cidadão, que se diz de bem, tem feito além de criticar, reclamar e colocar a culpa nas autoridades?”
Noemi

“Quem mais sofre com esta estratégia perversa são as famílias dos pacientes, pois quando eles estão em crise não há quem consiga segurar. Quando o transtorno é decorrente do uso de drogas é ainda pior”.
Cristina

“Problema que merece atitudes drásticas – politicas publicas de saúde e segurança no enfrentamento da situação”.
Helder

O que dizem os médicos

“A gente precisa trabalhar as necessidades da população. Humanizar é dar tratamento de qualidade”. Fábio Gomes de Matos e Sousa, psiquiatra e vice-presidente do Nupec.

“Só faz sentido reduzir os leitos se ampliarmos a prevenção, ainda na rede primária. Precisamos de mais terapias comunitárias”.
Adalberto Barreto, psiquiatra

“Há um debate distante das necessidades dos pacientes. As práticas dos Caps devem ser repensadas. O atendimento do doente mental pelo nosso sistema de saúde é injusto e indigno”.
André Férrer de Carvalho, psiquiatra

Saiba mais

A Prefeitura informou que três Caps 24 horas estão em funcionando na Capital. O POVO visitou dois deles: Caps Geral da SER II, no Joaquim Távora, e Caps AD Centro, na avenida Duque de Caxias. A visita ocorreu entre 21h e 22 horas da última quarta-feira, 28/11.

Nas duas unidades, não havia médico. Funcionários explicaram que o conceito de 24 horas vale apenas para pacientes que chegam no horário de funcionamento (8h às 17 horas) e precisam ficar em observação “por 24 horas”.

Foi questionado se o atendimento a um paciente em surto psicótico é possível depois do horário. “Não. Você procura uma emergência”, orientou um funcionário do Caps AD Centro.

A coordenadora da Saúde Mental da PMF, Rane Félix, afirma que as pessoas podem também buscar as emergências dos Frotinhas e Gonzaguinhas, quando há crise de pacientes com transtorno mental ou dependência química.

O diretor clínico do Hospital São Vicente de Paulo, José Raimundo Sobrinho, porém, diz que as emergências dos hospitais gerais de Fortaleza ainda não estão preparadas para receber pacientes em surto.

“É preciso uma equipe bem preparada para isso. O efeito do medicamento pode demorar; isso pode representar riscos. Além disso, falta equipar leitos para a realidade psiquiátrica”, argumenta.
Fonte:ABEAD(Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas)

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